22 dezembro, 2005

A chilreada fortuita

Hypomnemata#8 - Anotado ao acaso na página do dia 4 de Janeiro de 1984.

"(...)Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros."

Imperador Adriano por Marguerite Yourcenar

Adorei esta "chilreada" e é o que muitas vezes me apetece fazer e que outras vezes faço mesmo. Volto-me e digo baixinho..."Olhem, vão-me todos desculpar mas de momento o que me apetece mesmo é escutar o barulhinho das coisas miúdas... Quero lá saber dos fundos comunitários ou do Estatut catalão. Quero lá saber de planos de pensões. Não há paciência!. Por mais voltas que lhe dê, tudo só terá sentido no fim ( não é assim, Sissínia?). Sentemo-nos então à beira do riacho e escutemos a água que corre.

Hypomnemata#9 - Anotado ao acaso na página do dia 13 de Março de 1984 .

"(...) Il a appris à ses dépens que la poudre fait long feu, et qu'il ne suffit pas de placer les gens en face d'un beau paysage ou d'un beau livre pour les faire gôuter. Il va s' asseoir dans l'herbe avec ses poètes favoris et les feuillettes en regardadnt couler l'eau."

Marguerite Yourcenar

A foto é dela, a sua beleza transtorna-me.

19 dezembro, 2005

Mil cavalitos persas...













Nadie comprendía el perfume
de la oscura magnolia de tu vientre.

Nadie sabía que martirizabas

un colibrí de amor entre los dientes.

Mil caballitos persas se dormían
en la plaza con luna de tu frente,

mientras que yo elazaba cuatro noches

tu cintura, enemiga de la nieve.

Entre yeso y jazmines, tu mirada
era un pálido ramo de simientes.

Yo busqué, para darle, por mi pecho

las letras de marfil que dicen siempre.

siempre, siempre: jardín de mi agonía,
tu cuerpo fugitivo para siempre,

la sangre de tus venas en mi boca,

tu boca ya sin luz para mi muerte.


Federico García Lorca
, Gacela del amor imprevisto

P.S: Este poema é do c.... Perdoem-me a expressão, mas de vez em quando, apetece-me soltar um vernáculo bem português.

Eu acho que sou eu.

Ontem, em conversa com o E., apercebi-me de que alguns amigos meus não me reconhecem neste blog. Serei mesmo eu? Será outro que fala por mim. "Será que eu sou tua?" (esta é a brincar, don't panic.) . Despejem o que souberem e ajudem-me a perceber quem raio fala neste blog. Cabocla, Ni, E., Sissinia, Madame Vinçon, Ice, Mana...digam coisas, bolas!
P.S. Eu acho que sou eu. A foto é da "strada" que passa em Valdemolinos. A porca "Manola" está um pouco mais abaixo.
Vincent

16 dezembro, 2005

Um Claudio Lorrain

Hypomnemata#7 - Anotado ao acaso na página do dia 7 de Abril de 1984 . Começavam as férias da Páscoa.

"(...) Nunca vivi um Outono assim e nunca pude supor que tal coisa fosse possível: Um Cláudio Lorrain transposto para o infinito e, sobre a terra, uma sucessão de dias de inalterável perfeição".


Nietzsche

Estamos em Valdemolinos, num "prado" detrás" da casa de O. por onde sempre passamos nos nossos passeios e, invariavelmente, saltamos o muro e nos baloiçamos como idiotas felizes. Por companhia, alguma vaca noutro prado proximo ou os ronquidos da porca "Manola", um pouco mais abaixo, junto da estrada. Na volta do passeio, espera-nos o fogo da lareira e o suave aroma das "flores" fumadas em cachimbo.
Vivo momentos assim com essa incredibilidade de supor que tal coisa seja possível... Porque será que a felicidade, ainda que fugaz, nos pareça sempre algo questionável?

13 dezembro, 2005

Contra o vazio


Hypomnemata#6 - Anotado ao acaso na página do dia 19 de Novembro de 1984 (neste dia também apontei esta nota sem autor..."O Inverno tem sido apesar de tudo permissivo", gostei da frase, certamente e não faço ideia se a escrevi por outra razão. Talvez esse Inverno estivesse a ser suave e com menos espaços vazios com que lutar, como este que vivo agora.)
A foto é do Retiro, frente ao Palácio de Cristal. Era uma manhã deste Novembro, fria. Passeávamos os dois por recomendação do médico de P. que acabava de o operar a um pé. Era cedo e o parque estava quase vazio.

"De dia lutava contra a angústia, de noite contra o desejo e a todo o momento contra o vazio, que é a forma mais vil da desgraça."

Yourcenar, Clitmnestra


I'm proud of my gay wine!

O vinho é bom, apesar do nome. Ou o nome é bom, apesar do vinho. O enólogo decidiu explorar um nicho de mercado. É cedo para saber se vingou. Eu, pelo menos já bebi umas quantas. Gosto das "joaninhas" do rótulo em frente uma da outra, aqui chamam-se "mariquitas" (sobram as explicações).
O nome, lembra-me o que gritavam as mães americanas nas manifestações Pride..."I'm proud of my gay son!" o que sempre me deu muita vontade de rir, sobretudo quando E. as imitava. Não sei se em Portugal um vinho assim poderia ser um negócio mais que um risco. Assim é este país, orgulha-se de tudo o que tem. E parece-me muito bem!

09 dezembro, 2005

A erva


Hypomnemata#5 - Anotado ao acaso na página do dia 3 de Novembro de 1984 (neste dia estava em casa do E. a viver dias de inalterável perfeição).

"É verdade que a erva não produz flores, nem porta-aviões, nem sermões na montanha. (...) Mas no fim de contas é sempre ela que tem a última palavra. No fim de contas tudo retorna ao estado da China. (...) Não há outra saída senão a erva.(...)
Não existe senão nos grandes espaços não cultivados. Preenche os vazios. Ela cresce entre e por entre as outras coisas. Aflor é útil, a couve é útil. Mas é a erva é transvasamento, é uma lição de moral."

Henry Miller, in "Hamlet"

Voltarei a este texto. A foto é da Serra de Gredos vista desde as montanhas às que subimos de carro desde Piedrahita no passado fim de semana.

07 dezembro, 2005

O poder do gin


Hypomnemata#4 - Anotado ao acaso na página do dia 9 de Setembro de 1984 (nestes dias estava numa casa alugada no Zambujal, Cabo Espichel, com amigos. O primeiro amor da juventude comia à nossa mesa e deitava-se perto de mim. Olá E.)

"Todos nós, na nossa juventude, acreditámos no poder do gin! (...) Não nos iludíamos. Nem o sol que as gaivotas persegue, uma a uma. Sabíamos que um dia morreríamos. De Glória. Ou de escorbuto. Bebíamos então por grandes copos. Acreditávamos ainda no poder da juventude."

Théodore Fraenckel, 1950

Seguiremos acreditando nele? Ajudem-me porque não sei responder. Às vezes creio que sim, quando, como este fim de semana, depois de subir a uma montanha saltando como cabras, nos refugiámos nessa verdade. Bebamos então por grandes copos e celebremos o estarmos vivos sem nos preocuparmos com o dia em que não vejamos mais o sol perseguindo gaivotas.
A Monica ofereceu-nos dois Jacintos, que se foram abrindo, a diferentes ritmos, ao lado um do outro. Que potente imagem essa. Que verdade mais absoluta.