17 outubro, 2006

Água alta, manica corta.

Era a noite de lua cheia em Veneza. A laguna subia mais do que é costume em Outubro. As pontes deixavam de deixar passar os barcos e gondolas, as esplanadas enchiam-se de uma pequena camada de água que se confundia com o canal. Em São Marcos, tocava a orquestra sem parar. E nos Campos de Veneza ( como gostámos os dois desses Campos. Recordo alguns nomes...Santa Maria, San Polo, Santa Margherita, Santa Maria Formosa, San Zaccaria, Giovanni e Paolo, Tomá, Bárnaba, Maria Giglio...) brincavam crianças cabeçudas e passava gente sem parar, apressada, a caminho de casa. A lua cheia velava por nós e projectava sombras nas Calles e Fondamentas. Olhávamos muito e tudo nos parecia bonito. Invejávamos cada janela ou terraço empoleirado sobre os telhados. A maré alta enchia-nos também de felicidade.
Uma americana cruza-se connosco depois de estar discutindo com o seu grupo sobre qual a direcção da Piazza San Marco. Eu digo-lhe a minha intuição. Ela, sem acreditar muito no que lhe dizia e com uma expressão matreira que só os americanos sabem fazer, desabafou: We're very lost!. Assim é Veneza. Perfeita para a perdição.

A foto é do P. tirada da Ponte da Academia. Água alta é como chamam os venezianos à maré cheia. Manica corta é como eles chamam à manga curta...e que nós adorámos.