26 janeiro, 2006

...y desamordazarte y regresarte.

ELEGÍA A RAMÓN SIJÉ

(En Orihuela, su pueblo y el mío, se me ha muerto como del rayo
Ramón Sijé,a quien tanto quería)

Yo quiero ser llorando el hortelano

de la tierra que ocupas y estercolas,
compañero del alma, tan temprano.

Alimentando lluvias, caracolas
y órganos mi dolor sin instrumento,
a las desalentadas amapolas
daré tu corazón por alimento.
Tanto dolor se agrupa en mi costado
que por doler me duele hasta el aliento.

Un manotazo duro, un golpe helado,
un hachazo invisible y homicida,
un empujón brutal te ha derribado.

No hay extensión más grande que mi herida,
lloro mi desventura y sus conjuntos
y siento más tu muerte que mi vida.

Ando sobre rastrojos de difuntos,
y sin calor de nadie y sin consuelo
voy de mi corazón a mis asuntos.
Temprano levantó la muerte el vuelo,
temprano madrugó la madrugada,
temprano estás rodando por el suelo.

No perdono a la muerte enamorada,
no perdono a la vida desatenta,
no perdono a la tierra ni a la nada.
En mis manos levanto una tormenta

de piedras, rayos y hachas estridentes
sedienta de catástrofes y hambrienta.

Quiero escarbar la tierra con los dientes,
quiero apartar la tierra parte a parte
a dentelladas secas y calientes.

Quiero minar la tierra hasta encontrarte
y besarte la noble calavera
y desamordazarte y regresarte.

Volverás a mi huerto y a mi higuera:
por los altos andamios de las flores
pajareará tu alma colmenera
de angelicales ceras y labores.
Volverás al arrullo de las rejas
de los enamorados labradores.

Alegrarás la sombra de mis cejas,

y tu sangre se irá a cada lado
disputando tu novia y las abejas.

Tu corazón, ya terciopelo ajado,
llama a un campo de almendras espumosas
mi avariciosa voz de enamorado.

A las ladas almas de las rosas
del almendro de nata te requiero,
que tenemos que hablar de muchas cosas,
compañero del alma, compañero.

(El rayo que no cesa), Miguel Hernández

Outra das coisas que descubri com o P.
Escutem-no cantado por Juan Manuel Serrat.
Como o fazemos nós, vezes sem conta.

Prometo que a proxima publicação terá o doce sabor do chilrear fortuito dos pássaros. Tenho a perfeita noção de estar "poniendome pesado".

Nunca saberemos nada


Hypomnemata#14 - Anotado ao acaso na página do dia 10 de Maio de 1984.

"(...da tarde) da qual também nunca saberei nada, precisamente, porque me importaria saber tudo."

Adriano, Marguerite Yourcenar

Curioso este apontamento. Vinte e dois anos depois estas palavras ganham ainda mais peso (não sei que peso teriam então). Que gestão difícil é a de decidir o que queres saber e o que podes saber. Ontem, precisamente, falando com o P. dizia-lhe que, por exemplo, não me importava de saber tudo. E, no entanto...

Não sei (mais uma coisa das tantas que não sei) se querer saber tudo é menos corajoso que preferir não saber nada. Não querer saber é uma dor que arrastamos connosco e saber tudo pode ser a impossibilidade de seguir em frente.
O acto de coragem, afinal, está do lado que quem assume o risco de contar tudo ou do lado de quem enfrenta o perigo de querer ouvi-lo.
Não vos aborreço mais. Enough is enough.

A foto é do Lago Espelho, no Mosteiro de Piedra, em Nuevalos, Aragão. Uma bela metáfora sobre o que sabemos e o que julgamos saber.

13 janeiro, 2006

Todos os nomes...


Hypomnemata#10 - Anotado ao acaso na página do dia 25 e 26 de Dezembro de 1984. No dia seguinte passaria a minha primeira noite com E. depois de um longo ritual de enamoramento. Este é um dos nomes do amor.







(...) some love to little
some too long,
some sell and other bye.
Some do the did with many tears
and some without a sign
for each man kills the thing he loves
and each man does not die. (...)

Oscar Wilde, Tha Ballad of Reading Jail


Hypomnemata#11 - Anotado ao acaso na página do dia 1 de Maiode 1984. Anotado também, sem que hoje me lembre porque razão, o início da "5ª lunação". Este é outro dos nomes do amor. Seguirão mais.

"(...)Aceitar ver na inquietude da desordem e na dor da fuga, as duas únicas evidências do amor."

Brukner e Finkielkraut


Hypomnemata#12 - Anotado ao acaso na página do dia 19 de Dezembro de 1984.


"(...) Não consigo resistir-te. Sentir-me dissolver na tua beleza e morrer de frio na neve...não há destino mais doce."

Mishima, Neve de Primavera

Hypomnemata#13 - Anotado na página do dia 1 de Agosto de 1984, e não foi ao acaso visto que tem a data do mesmo dia em que o escutei na radio de onda curta, de madrugada: Jesus Quintero, nesse momento apenas ainda "El loco de la colina". Aquela voz...meus deus, aquela voz!

"(..) O que ama sabendo porque ama, não ama."

El loco de la colina, 1.08.2004

Falta-me não falar da foto. É apenas outro dos nomes.

10 janeiro, 2006

As grandes horas


Hypomnemata#9 - Anotado ao acaso na página do dia 10 de Fevereiro de 1984.

"As grandes horas! - Vivê-las a preço mesmo dum crime! Só a beleza redime - sacríifícios são novelas. "

Mário de Sá Carneiro


A foto também tem que ver com a redenção da beleza. É uma vez mais de Valdemolinos, um sítio que se começa a parecer a algo parecido ao paraíso.

Como cabras... Recordo que subimos aquela encosta na expectativa da vista que poderíamos encontrar. Era difícil antecipar o que por fim encontrámos do alto de uma pedra, sentados. Um silêncio perturbante, um sol abençoando todo o vale dando-lhe um tom indescritivelmente belo. Um nó na garganta e lágrimas que se assomavam aos nossos olhos. Vivíamos uma grande hora. A foto, igualmente bela, é do P. e foi feita no primeiro dia do ano. A beleza daquela Hora não se repetirá da mesma forma.