26 janeiro, 2006

Nunca saberemos nada


Hypomnemata#14 - Anotado ao acaso na página do dia 10 de Maio de 1984.

"(...da tarde) da qual também nunca saberei nada, precisamente, porque me importaria saber tudo."

Adriano, Marguerite Yourcenar

Curioso este apontamento. Vinte e dois anos depois estas palavras ganham ainda mais peso (não sei que peso teriam então). Que gestão difícil é a de decidir o que queres saber e o que podes saber. Ontem, precisamente, falando com o P. dizia-lhe que, por exemplo, não me importava de saber tudo. E, no entanto...

Não sei (mais uma coisa das tantas que não sei) se querer saber tudo é menos corajoso que preferir não saber nada. Não querer saber é uma dor que arrastamos connosco e saber tudo pode ser a impossibilidade de seguir em frente.
O acto de coragem, afinal, está do lado que quem assume o risco de contar tudo ou do lado de quem enfrenta o perigo de querer ouvi-lo.
Não vos aborreço mais. Enough is enough.

A foto é do Lago Espelho, no Mosteiro de Piedra, em Nuevalos, Aragão. Uma bela metáfora sobre o que sabemos e o que julgamos saber.