Berlim, ano 2006
Hypomnemata#16 - Anotado ao acaso na página dos dias 11,12,13 e 14 de Abril de 1984. Decidi publicar a nota que estava escrita no dia de hoje. Procurei-a e dei de caras com um texto sobre a morte. Decidi publicá-lo para contrariar o medo e alguma superstição idiota. Afinal de contas ..."morre-se, mas a vida também é bela".
Berlim espera-nos. E a vida sorri-me.
"(...) O mal (o bem) é que todos morremos demasiado cedo. Lentamente. Não há nada, de facto, que a apague. A morte é algo que acontece sempre aos outros, demasiado cedo. Antes de tempo. Quando se chega lá, é já demasiado tarde – no hospital, na maca, ao acaso, um lençol levantado, inadvertidamente.
Já me aconteceu dar de caras com ela e não a reconhecer. A morte é sempre a morte, uma coisa tautológica. Nela, os vivos (os mortos) sempre se equivalem, e a morte, a ela, nada há que a figure verdadeiramente.
Também quem este poema escreveu já morreu. Este é, mesmo, o poema do seu enterro. Felizmente que era belga. Contentava-se com pouco: um pouco de sol – e de silêncio.
Na Grand Place, em Bruxelas com os vidros das janelas a rebrilhar por dentro.
Morre-se, mas a vida também é bela – mesmo em Bruxelas.
Ainda vale a pena vivê-la – e escrever mesmo, de vez em quando, um poema.
Enquanto é tempo. Como este.
Que seja como um sobretudo.
Ou um rio, lento."
Theódore Fraenckel, Hotel Scheers, Bruxelas Noite de 1 para 2 de Julho de 1950.
Nasceu em Bruxelas, em 1900. Morreu a 3 de Julho de 1950.

3 Comments:
Da morte não tenho receio. Nunca tive, mesmo se a desejei. Apoquenta-me o tédio, o desalento, a fraqueza. Se habitasse alguma casa num impasse de uma medina, punha-lhe o nome de impasse solitude. E ali ficaria.
Procura pela medina uns olhos verdes onde ancorar e descansa neles o desalento. Entrará uma brisa fresca pelos becos estreitos e o teu impasse terminará num portão de um azul feliz, como tão bem o sabem escolher os povos do sul.
O azul dessas paragens serve para afugentar os insectos, dizem. Mas há realmente o azul do céu, o azul do mar, o azul do peixe grelhado, o azul das saladas, e o azul dos fritos doces com mel que se misturam com o cheiros dessas gentes...Guardamos para sempre o azul da memória até que as cinzas nos façam regressar.
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